Como uma doutrina religiosa é capaz de criar empresários e executivos de sucesso.
Por Rodrigo CAETANO
Assim na terra como na empresa: Carlos Wizard Martins, do grupo Multi, usa os conceitos
da religião como inspiração para gerir suas escolas de idiomas.
Dona de diversos negócios com fins lucrativos, organizados sob a
holding DMC, com sede em Salt Lake City, no Estado de Utah, a empresa
conta com seis subsidiárias, que controlam 11 estações de rádio, uma
emissora de tevê, diversas empresas de mídia impressa e digital, além de
uma prestadora de serviço de hospitalidade e uma seguradora, com mais
de US$ 3,3 bilhões em ativos. Neste ano, inaugurou um shopping que
custou US$ 2 bilhões em sua terra natal, onde está localizado o maior
templo da Igreja, com capacidade para sete mil fiéis. É fácil entender
por que os mórmons têm tantas posses. Eles podem ser
considerados a mais capitalista das religiões – embora outras, como a
calvinista, abençoem o lucro e estimulem seus seguidores a enriquecer,
ela difere na forma como está organizada, semelhante à de uma
corporação.
Seus dogmas seguem conceitos que são muito apreciados no mundo dos
negócios. Por essas razões, boa parte de seus fiéis são empreendedores
de sucesso ou executivos bem-sucedidos em grandes empresas. No Brasil,
pode-se citar o empresário paulista Carlos Martins, presidente do grupo
Multi, dono de várias escolas de idioma e de informática, como a Wizard e
S.O.S Computadores, cuja receita
ultrapassa os R$ 3 bilhões. O brasileiro David Neeleman, que criou a
companhia aérea Azul, atualmente dona de uma fatia de 10% do mercado de
aviação civil nacional, é outro mórmon de destaque. Ele nasceu no
Brasil, quando seu pai cumpria uma missão no País. Mais tarde, ele
próprio foi missionário no Rio de Janeiro e no Nordeste.
A lista inclui o gaúcho Francisco Valim, que tem o desafio de fazer
a empresa de telefonia Oi crescer novamente. “Desde pequenos aprendemos
a liderar e a lidar com a rejeição”, afirma Martins, referindo-se ao
fato de pertencer a uma confissão minoritária. “Isso ajuda muito na hora
de enfrentar o mercado de trabalho.” Nos Estados Unidos, destacam-se o
candidato republicano à Presidência Mitt Romney,
fundador da Bain Capital, empresa de private equity com uma carteira de
investimentos superior a US$ 60 bilhões. Outro bilionário mórmon é Jon
Huntsman, filho do fundador da Huntsman Corporation, gigante da
indústria química, com valor de US$ 11 bilhões na bolsa de Nova York.
Quem também contribui com 10% de seus rendimentos à igreja é J.W.
Marriot, presidente da cadeia de hotéis Marriot. Assim como para os
católicos um dogma importante é acreditar na Santíssima Trindade, os
mórmons são doutrinados pelo trabalho. Para seus devotos, trabalhar
é uma obrigação espiritual, como ir à missa aos domingos e rezar o Pai
Nosso é para os súditos do papa Bento XVI. O sucesso nos negócios,
portanto, nada mais é do que um sinal de que o indivíduo está seguindo
os mandamentos da Igreja. “Uma coisa que aprendemos é ser
perseverantes”, afirma o mórmon Paulo Kretly, presidente da consultoria
americana de treinamento FranklinCovey, no Brasil. “Dessa maneira,
conseguimos o sucesso que algumas pessoas não alcançam por falta de
paciência.”
Nascido em uma família humilde — seu pai não chegou a completar o
segundo grau —, Kretly precisou conciliar a carreira com os estudos e o
trabalho voluntário na Igreja. Mesmo com as dificuldades, completou o
mestrado e iniciou um doutorado. Essa firmeza e essa obstinação de
objetivos são injetadas desde muito cedo aos fiéis. Aos 8 anos, eles são
incentivados a fazer pequenos discursos nas igrejas, para perderem o
medo de falar em público. Aos 19 anos, recebem um “choque de gestão” ao
se alistarem nas missões. Voluntariamente, eles abandonam o convívio
familiar e são encarregados da evangelização e conquista de novos
adeptos, na maioria das vezes no Exterior. Antes de embarcarem, os
missionários passam por um centro de treinamento, no qual aprendem a
“vender” a religião.
Durante a missão, que dura dois anos, podem entrar em contato com a
família apenas duas vezes. “É uma experiência muito difícil, uma vez
que temos de sair de casa para enfrentar o desconhecido”, afirma o
mórmon Paulo Amorim, ex-sócio da Korn Ferry e atual presidente da
Alexander Proudfoot, consultoria especializada em produtividade, na
América Latina. “Quando voltamos, no entanto, somos capazes de vender
qualquer coisa.” Com passagem pela Autolatina, fusão da Volkswagen com a
Ford, no Brasil, nos anos 1980, e pela americana Pepsico, Amorim se
especializou em trabalhar na formatação de grandes transações. Um
exemplo em que esteve envolvido foi na consolidação das operações das
Pizza Hut e KFC no Brasil.
Jargões corporativos, como “coaching”, e palavras como liderança e
conselho consultivo são também comuns para explicar o funcionamento da
Igreja Mórmon. “A organização da Igreja é perfeita”, afirma Martins, do
grupo Multi. “Qualquer empresa que adotá-la será bem-sucedida.” Foi o
que fez Martins, quando começou, em 1987, a dar aulas particulares de
inglês em Curitiba. Ele usou o método de ensino mórmon para aprender
idiomas, que promete que qualquer um pode falar outra língua
rapidamente. Tanto que, na ocasião, o empresário adotava o slogan
“Inglês em 24 horas” como chamariz para atrair clientes. Um quarto de
século depois, Martins é dono da maior rede de ensino de idiomas do
País, que conta com 700 mil alunos. Tudo construído na base dos
preceitos mórmons, com persistência e muito trabalho duro.
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